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Comunidade quilombola Conceição das Crioulas (PE) recebe título de mais de 800 hectares


Publicado dia 22/09/2014

Vinte e dois de setembro passa a ser um dia histórico para a comunidade quilombola Conceição das Crioulas, localizada em Salgueiro, estado de Pernambuco. Na manhã desta segunda-feira, foram entregues pelo Incra três títulos de domínio de cinco imóveis rurais que estavam dentro do Território Quilombola.

 

Com este ato que visa assegurar direitos históricos e garantir segurança jurídica quanto à situação fundiária, aproximadamente 898 hectares passaram a compor efetivamente o patrimônio coletivo da comunidade, beneficiando 750 famílias. A titulação ocorreu mediante a outorga de título coletivo e pró-indiviso à comunidade, em nome da Associação Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC).

 

O presidente do Incra, Carlos Mário Guedes de Guedes, ressaltou que o dia de hoje representou um marco pela igualdade e justiça social. “Além da promoção da regularização dos territórios quilombolas, fato que proporciona desenvolvimento social e sustentável às comunidades, comemoramos aqui também o resultado das mesas Permanentes de Acompanhamento da Política de Regularização Quilombola. Sem os debates promovidos por elas, não teríamos hoje avanços como esse registrado aqui", destacou.  

 

Ao esboçar sua satisfação com a conquista da comunidade, a presidente da  AQCC, Valdeci Maria da Silva Oliveira, frisou a importância desta ação do Incra. “Foram anos e anos de luta. Muitos que iniciaram essa batalha já não estão aqui para comemorar". 

 

Conceição das Crioulas está no município de Salgueiro, no sertão pernambucano, a  550 quilômetros de Recife. O povoado é composto por 16 núcleos populacionais, nos quais residem aproximadamente 750 famílias. O local teve seu decreto de regularização de território quilombola assinado no dia 20 de novembro de 2009.
 
Histórico

 

Segundo os moradores, a comunidade Conceição das Crioulas remonta ao início do século XIX, com a chegada de seis crioulas. Guiadas por Francisco José de Sá, um escravo fugitivo, elas chegaram e fixaram moradia. A região era habitada pelos índios Atikum, com quem as crioulas e seus descendentes passaram a conviver em harmonia.

 

A princípio, as seis mulheres arrendaram uma área de terra, que aos poucos foram comprando graças ao trabalho de produção e fiação do algodão. Parte da área adquirida foi doada para a construção de uma capela, onde colocaram a imagem de Nossa Senhora da Conceição que Francisco José de Sá havia trazido na viagem. Em homenagem à santa, a comunidade passou a se chamar Conceição das Crioulas. 

 

Educação-modelo

 

A experiência educacional de Conceição das Crioulas é considerada referência para o movimento quilombola e outras organizações que trabalham com educação. A comunidade construiu um projeto de “educação específica e diferenciada” que trabalha com uma concepção na qual os valores, a cultura, os costumes, as tradições, a sabedoria das pessoas mais velhas e a história dos antepassados fazem parte do processo histórico da comunidade. 

 

Segundo Maria de Lourdes da Silva, educadora da comunidade e membro da Comissão de Educação, a iniciativa surgiu como resposta à discriminação e ao preconceito que os quilombolas vivenciavam. "Daí conquistamos um espaço importante com uma escola em nossa comunidade. Noventa por cento dos educadores são do nosso próprio meio, e a comunidade participa da elaboração do projeto pedagógico”, explica.  

 

As aulas são ministradas na escola Professor José Mendes, inaugurada em 1995. Antes desta data, os jovens de Conceição das Crioulas só podiam cursar até a 4ª série do Ensino Fundamental. A luta pela oferta de educação da 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental na comunidade foi o início de uma jornada de mobilização em defesa do direito a uma educação diferenciada que contemplasse a realidade das comunidades quilombolas. Outra conquista da comunidade foi a primeira biblioteca afro-indígena do Brasil. 

 

Em 2002, o Centro de Cultura Luiz Freire - que tinha experiência em trabalhar com educação diferenciada para os povos indígenas- iniciou um processo de formação de educadoras quilombolas. Desde então, essa organização tem sido um importante aliado na luta pela educação diferenciada para as comunidades quilombolas.

 

Artesanato e Agricultura 

 

O artesanato é atividade antiga em Conceição das Crioulas, realizado desde que as seis fundadoras iniciaram o plantio e fiação do algodão. Segundo Rosa Doralina Mendes, artesã e professora aposentada, o artesanato foi resgatado para geração de renda da comunidade recentemente. “Em uma época de situação econômica muito difícil, ele foi o modo que encontramos de ganhar mais”.

 

Dentre as riquezas do artesanato de Conceição, é possível destacar as bonecas que contam a história de 10 mulheres; o trabalho com algodão que relembra a origem da comunidade; as peças de barro; as esteiras e o suplá de palha.

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