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Comunidade quilombola do Grilo (PB) tem novo acesso para escoar produção


Publicado dia 19/11/2018
Crédito: Francimar Fernandes

 

Definir o sentimento ao ver a estrada que começou a abrir com as próprias mãos sendo pavimentada em paralelepípedos pelo Departamento de Estradas de Rodagem da Paraíba (DER/PB) é simples para Leonilda Coelho Tenório dos Santos, 57 anos: "Um sonho que se torna realidade". A obra, na comunidade quilombola do Grilo em Riachão do Bacamarte (PB), a cerca de 100 quilômetros de João Pessoa, é resultado da iniciativa solitária de dona Paquinha, como é conhecida Leonilda, ex-presidente da associação de moradores do local, e facilitará o acesso das 71 famílias da comunidade aos municípios vizinhos de Campina Grande, Ingá e Juarez Távora.
 
De acordo com o diretor de Operações do DER/PB, Armando Marinho, a pavimentação da estrada, que tem cerca de um quilômetro e custará R$ 484 mil, está sendo realizada por meio do Programa Mais Trabalho. A previsão é a de que seja concluída até o final deste ano.
 
A pavimentação em paralelepípedos contribuirá para diminuir o isolamento e facilitar o escoamento da produção das famílias, que vivem atualmente do plantio de milho, fava, macaxeira, inhame, batata-doce e de, pelo menos, nove variedades de feijão. Algumas também têm tirado seu sustento do cultivo de hortaliças; outras, de pequenas criações de animais, como cabras, bodes e perus.
 
Há cerca de 15 anos, não havia no lugar da estrada mais do que uma trilha perigosa, com pedras e de espécies nativas cheias de espinhos, como xiquexiques e mandacarus. Depois de um sonho, dona Paquinha comprou três marretas com as economias guardadas para reformar a casa simples onde vivia com o marido e quatro filhos. Depois de passar o dia no roçado e fazer os trabalhos de casa, ela quebrava pedras e arrancava o mato para alargar a trilha que levava a comunidade a estradas carroçáveis (nas quais é possível o tráfego de veículos).
 
"Abri a estrada com minhas próprias mãos. Quebrava as pedras à noite, às vezes até 1 hora da madrugada, porque é mais fácil de quebrar quando a pedra pega a quentura do dia", explicou.
Ela contou que gastou quase R$ 9 mil em brita e cimento e dois anos e meio para tornar o caminho carroçável. "Deixei de ajeitar minha casa pra fazer isso", revelou a liderança, ao relembrar a tristeza sentida quando via famílias deixando a comunidade devido ao isolamento.
 
Dona Paquinha enfrentou a descrença dos vizinhos praticamente sozinha. "Era chamada de doida", disse. "Hoje me sinto realizada e vitoriosa porque comecei sozinha, sem dinheiro, com a cara e a coragem. Abri a estrada porque queria que desse para passar pelo menos um burro de carga e mesmo antes dessa obra de agora, já passava até caminhão e ônibus escolar. A vida mudou muito. Não somos mais isolados".
 
Cisternas
 
Dona Paquinha também trabalha na construção de cisternas de placas por meio do Programa Cooperar, do Governo do Estado da Paraíba. Já foram construídas, desde 2016, 55 cisternas na Comunidade do Grilo - a maior parte pelas mãos de dona Paquinha.
 
"Com as cisternas mudou tudo, porque o lugar onde vivemos é seco, sem água. A gente andava várias léguas de burro para buscar água", disse, acrescentando que, atualmente, a Secretaria de Saúde do Estado faz periodicamente a análise da água armazenada nas cisternas da comunidade.
 
Antes, segundo Paquinha, eram necessárias até três viagens de burro ou jumento até a barragem mais próxima, a cerca de meia hora, para conseguir água para a horta. Até pouco tempo atrás, as famílias utilizam a pouca água proveniente de um poço perfurado pela comunidade no último trimestre de 2016. Agora, boa parte da água para a produção vem das cisternas.
 
Regularização
 
O processo de regularização do território de 139 hectares reivindicado está em fase de conclusão. Em fevereiro de 2017, as famílias receberam da Superintendência Regional do Incra na Paraíba (Incra/PB) o Contrato de Concessão de Direito Real de Uso (CCDRU), um título provisório garantindo a posse da área pela comunidade até a conclusão, pela Justiça Federal, da ação de desapropriação do terceiro e último imóvel incidente sobre o território quilombola.
 
Segundo a antropóloga do Serviço de Regularização de Territórios Quilombolas do Incra na Paraíba (Incra/PB) Maria Ester Fortes, embora ainda não esteja de posse do título definitivo, a comunidade já pode usufruir plenamente do território, com acesso pleno e autoridade sobre as áreas.
 
Para dona Paquinha, presidente da associação da comunidade do Grilo à época da conquista do título, ele significa libertação. "Hoje podemos plantar sem medo, fazer uma pequena barragem e investir na produção”, afirmou.
 
Ela contou, ainda, que as famílias pagavam foro, uma taxa cobrada pelos proprietários das terras, para poderem plantar na área durante seis meses do ano. “Às vezes não dava nem tempo de colher o roçado porque o gado dos donos das terras comia tudo”, lembra.
 
A presidente da Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes da Paraíba (Aacade/PB), Francimar Fernandes, afirmou que, em 2006, quando a entidade passou a acompanhar a situação da comunidade do Grilo, as famílias viviam "uma dura realidade". "Elas sofriam com a falta d'água, tinham pouco espaço para produzir. O difícil acesso também provocava problemas relacionados à falta de informação e de comunicação", afirmou Francimar.
 
Segundo Francimar, o papel da Aacade/PB "é contribuir para que as políticas públicas cheguem e, tudo isso, com o protagonismo das lideranças". Ela destacou como principal vitória a conquista do território, há dois anos, mesmo ainda sem terem o título definitivo.
 
História documentada
 
O Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) – peça inicial do processo administrativo de regularização dos territórios quilombolas – da comunidade do Grilo foi publicado em 25 de março de 2011. A elaboração do documento foi possível graças a um contrato firmado em março de 2008 entre o Incra/PB e a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB). A equipe técnica responsável pelos trabalhos foi comandada por Mércia Rejane Rangel Batista, doutora em Antropologia Social e professora adjunta da Unidade Acadêmica de Sociologia e Antropologia do Centro de Humanidades da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
 
O RTID aponta os aspectos históricos e socioculturais das comunidades e é constituído por relatório antropológico, relatório agronômico e ambiental, levantamento fundiário, mapa e memorial descritivo da área, além da relação das famílias quilombolas cadastradas pelo Incra.
 
De acordo com depoimentos dos moradores do Grilo transcritos no RTID, a comunidade se originou quando as terras do quilombola vizinho, Pedra D'Água, tornaram-se insuficientes para sustentar todas as famílias. Descendentes da Pedra D'Água se estabeleceram em terras dos arredores, que constituem as comunidades quilombolas do Grilo, do Matias e do Matão.
 
Ainda conforme consta no documento, as famílias atuais descendem, em grande parte, dos primos Manuel Dudá e Dôra, que, depois de casados, retornaram ao Grilo, onde Manuel havia nascido, na condição de moradores. No final da década de 1960, após 14 anos de trabalho, a família comprou um pequeno pedaço de terra onde hoje é o núcleo de moradia do Grilo.
 
Ao se casarem, os filhos do casal foram se estabelecendo ao redor dos pais e passaram a depender das terras vizinhas para manter seus roçados, não mais como moradores, mas como arrendatários.
O RTID registra várias características e tradições, como a organização em torno dos laços de parentesco, a priorização dos casamentos endogâmicos (consanguíneos), as memórias de festa e trabalho constituídas pela lida no roçado próprio ou como mão de obra alugada, a confecção de louça de barro e do labirinto – tarefas marcadamente femininas –, as festas de São João e as celebrações animadas pelo coco de roda, pela ciranda e pelo samba. As celebrações religiosas de caráter coletivo incluíam, segundo o relatório, as rezas ao longo de todo o mês de maio e as novenas realizadas nas casas e encerradas, muitas vezes, com uma roda de ciranda.
 
Atualmente, outros 29 processos para a regularização de territórios quilombolas estão em andamento no Incra/PB.
 
De acordo com a presidente da Aacade/PB, Francimar Fernandes, 39 comunidades remanescentes de quilombos na Paraíba já possuem a Certidão de Autodefinição expedida pela Fundação Cultural Palmares.
 
 
Assessoria de Comunicação Social do Incra/PB
(83) 3049-9259
http://www.incra.gov.br/pb

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